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Obra da ferrovia Transnordestina se arrasta há dez anos

Obra da ferrovia Transnordestina se arrasta há dez anos

Foram gastos mais de R$ 6 bilhões e só metade foi concluída.
Ferrovia foi planejada para ligar estados do Nordeste aos portos.

Uma das obras mais importantes de infraestrutura no Brasil se arrasta há dez anos. Já foram gastos mais de R$ 6 bilhões e só metade dela foi concluída. Mas essa parte, por enquanto, não serve para nada.

Os repórteres Bruno Grubert e Eduardo Riecken percorreram três estados para saber o que aconteceu com a Transnordestina.

A fila de vagões no sertão é de perder de vista. Eles estão lá há pelo menos um ano, mesmo tempo em que as obras da Transnordestina não andam em Pernambuco.

A ferrovia, com quase 1.800 quilômetros, foi planejada para ligar três estados do Nordeste – Piauí, Pernambuco e Ceará – aos principais portos da região: Suape (PE) e Pecém (CE). A obra começou em 2006. Deveria ter ficado pronta em 2016.

Se a Transnordestina tivesse sido entregue em janeiro, como estava previsto no projeto, esses vagões já poderiam estar transportando grãos e minérios para os portos da região, mas, até agora, a única carga que eles levaram até foi de pedra brita, que é usada na construção, para assentar os trilhos por onde a ferrovia vai passar. Com a obra parada, os vagões estão enferrujando.

Só não região de Salgueiro, são mais de 250. A fila passa dos dois quilômetros, vai até onde a vista alcança.

No começo, a previsão era de que seriam gastos R$ 4,5 bilhões para a construção de toda a Transnordestina. Mas até agora, dez anos depois do início das obras, já foram consumidos R$ 6,2 bilhões para a colocação de 600 quilômetros de trilhos que, por enquanto, levam o nada a lugar nenhum.

Segundo a concessionária, metade da obra foi concluída.

A ferrovia vem sendo construída em lotes, em direção ao litoral. O trecho em verde é o que está pronto, ainda longe dos portos. As partes em azul estão em obra. Os trechos em amarelo e vermelho esperam licenciamento ambiental ou contratação.

Parte deles nem foi usada e já vai precisar de reforma. Outras estruturas, como uma ponte, nunca ficaram prontas. Em mais quatro locais, há vagões parados.

Em Salgueiro, a Transnordestina fica lado a lado com de outra obra anunciada como transformadora do Nordeste e inacabada: o canal de transposição do Rio São Francisco.

A menos de 20 quilômetros do principal canteiro de obras, uma máquina foi deixada para trás totalmente enferrujada, sem motor e com componentes eletrônicos quebrados e espalhados. Um investimento pesado que virou sucata.

A concessionária diz que esses equipamentos eram de uma das empreiteiras que tiveram o contrato cancelado. Das nove construtoras, duas faliram e deixaram a obra antes de concluir o serviço.

Outras máquinas também foram recolhidas. Estão num pátio, sem uso, junto com as locomotivas, ao lado de pilhas e pilhas de trilhos e dos milhares de dormentes de concreto feitos na fábrica que foi considerada a maior do mundo.

Ela chegou a ter 600 operários até 2016, quando a produção parou.

“A demissão foi de uma hora para outra”, disse o trabalhador.

“Eles mandaram embora e mandaram eu procurar um advogado para receber minha rescisão e até hoje está rolando na Justiça”, afirmou um motorista.

Os vigias foram substituídos por bonecos para espantar os ladrões. No depósito, tem ambulâncias cobertas de poeira. Num outro canteiro de obras, muito material.

Em três mil quilômetros percorridos, só foram encontradas máquinas paradas, como no canteiro da obra no Piauí. No Ceará, a ponte do trem só serve de estrada para os carros.

Depois de tanto atraso, o Ministério dos Transportes quer agora que a concessionária prove com números e documentos se vai ter condições de concluir a obra.

“Sem esses dados, o governo não pode manter essa parceria e vai ter que buscar caminhos para encerrá-la e tocar essa obra como obra do governo e depois no futuro buscar um novo parceiro através de um novo processo de concessão. O que não pode acontecer é o governo continuar colocando recursos, a obra continuar aumentando de valor e o parceiro privado sem demonstrar a sua capacidade de participar do investimento”, disse o ministro dos Transportes, Maurício Quintella Lessa.

A Transnordestina Logística recebe investimentos privados da Companhia Siderúrgica Nacional, a CSN, e dinheiro público da Valec, uma empresa federal ligada ao Ministério dos Transportes. Até ficar pronta, a ferrovia deve consumir R$ 11 bilhões. Parte dessa conta já foi paga com dinheiro público. O último repasse federal chegou para a concessionária no início de janeiro: foram R$ 153 milhões.

“Esse dinheiro será empregado na quitação de alguns débitos, algumas dívidas que nós temos, e também na retomada simultânea nos dois trechos”, disse Sérgio leite, presidente da Transnordestina Logística.

Por que uma obra que consome tanto dinheiro público se arrasta por tanto tempo? O Tribunal de Contas da União também quer saber. Já abriu sete investigações sobre a Transnordestina e agora proibiu o governo federal de liberar mais dinheiro para a concessionária.

“Estão sendo questionados os aspectos jurídicos do contrato de concessão, soma-se a isso a extrapolação em muitos anos do prazo para a conclusão dessa obra e a elevação drástica das estimativas de custos para esse empreendimento”, explicou Uriel de Almeida Papa, secretário de Fiscalização de Infraestrutura Portuária e Ferroviária do TCU.

O presidente da concessionária diz que o projeto original previa a construção de 800 quilômetros de ferrovia e a renovação de 1.200 que já existiam. E que a concessionária descobriu que não seria viável aproveitar a estrutura antiga. Decidiu fazer tudo novo. Segundo ele, foi isso que aumentou o orçamento.

“O projeto de 4,5 bilhões não tem nada a ver com o projeto de R$ 11,2 bilhões. 2004 é o projeto original, 2012 foi a concepção dessa nova ideia, discutida, aceita pelo governo federal e colocada então em marcha. Recursos que entram, obra que tem andamento. Infelizmente nós tivemos uma interrupção de recursos em março do ano passado. Então em março, abril foi interrompido o Ceará e no final do ano passado foi interrompido o Piauí”.

A Agência Nacional de Transportes Terrestres, fiscalizadora da obra, informou que está apurando descumprimentos contratuais por parte da empresa. Se confirmados, podem levar ao fim da concessão.

A nova previsão da concessionária é entregar a ferrovia em 2021. Serão 15 anos de obras. Isso, se o novo cronograma realmente for cumprido.

A Companhia Siderúrgica Nacional, a CSN, uma das responsáveis pela Transnordestina Logística, declarou que “houve reiterados atrasos nos repasses públicos que comprometeram o planejamento, a gestão e o cumprimento de prazo de finalização da obra”.

A empresa disse que já investiu R$ 2,5 bilhões no projeto e ainda vai colocar mais R$ 68,8 milhões. A CSN disse ainda que esperar que o governo continue investindo na obra e que ele deve repassar mais R$ 1,9 bilhão.


Fonte: Jornal Nacional

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