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São José do Belmonte onde não passa nada

São José do Belmonte onde não passa nada
São José do Belmonte – No meio da noite, por volta das 22 horas, Janierly Souza começou a sentir pontadas no estômago. As pontadas viraram uma dor forte e persistente. Poderia ser uma cólica, ou algo mais grave, uma apendicite. Ela não tinha como saber. O médico mais próximo estava a sete quilômetros. Janierly não tem carro, nem moto. Nem tem ônibus, nem van, nem acesso a nenhum transporte público na cidade onde vive, São José do Belmonte, em Pernambuco, quase na divisa com o Ceará. Por sorte, a vendedora de 26 anos conseguiu caminhar na manhã seguinte os sete quilômetros até o hospital, onde precisou ser internada com desidratação.

O drama de Janierly aflige quase 1 milhão de brasileiros, moradores de cidades onde não há transporte público – nem ônibus que circulem dentro dos municípios ou para cidades vizinhas, nem trem, metrô ou barco. E tampouco há táxi ou mototáxi. São 150 municípios do país onde os moradores, se não tiverem veículo próprio, dependem apenas de seus pés para se locomover, como revela um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, feito a pedido da piauí, com dados da pesquisa Perfil dos Municípios Brasileiros de 2017.

Os números levantados pelo IBGE tendem ainda a ser subnotificados. Levando em conta as cidades onde há apenas ônibus intermunicipal (sem que haja pontos de parada dentro das cidades), são 2,1 milhões de brasileiros que podem apenas caminhar ou contar com veículos particulares. Esses são os brasileiros obrigados a andar a pé, que se somam aos muitos milhões que vivem onde não há transporte coletivo regular perto de casa. São pelo menos 12,4 milhões de Janierlys que vivem onde não passa nem um ônibus sequer.

“Fui me virando com os remédios que tinha em casa, e tive que aguentar e esperar o dia seguinte para ir ao médico”, relembrou a vendedora, sobre o susto que levou-a a caminhar até o hospital. Em São José do Belmonte, cidade de 34 mil habitantes a 470 quilômetros de Recife, não se encontram ônibus, vans, trens ou táxis. Os poucos mototáxis atendem só até o fim da tarde. “De noite, o único jeito é a pé. Mas depois de uma certa hora é perigoso, principalmente para uma mulher.”

Além da insegurança, há o tempo e energia gastos. Janierly passa todo dia 80 minutos caminhando, no trajeto entre sua casa e a farmácia onde dá expediente, no Centro da cidade. O salário de 870 reais não permite o luxo da viagem de mototáxi, e ela não arrisca pedir caronas.

“É cansativo, mas a necessidade obriga. Faço isso todo dia há quatro anos”, lamentou a vendedora, que mora na Zona Rural de um dos distritos de Belmonte. A cidade é dividida em dois distritos e três povoados, com uma área total de 1 474 quilômetros quadrados – mais do que duas Ribeirão Preto, cidade média do interior de São Paulo. “Ainda não deu para ter um carro, infelizmente. Tem despesas para me manter, pagar água, luz, aluguel. Se eu não caminhar, no final do mês o salário vai todo para mototáxi.”


Fonte: Folha

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