Campanha da Fraternidade 2021: arcebispo militar orienta capelães a não aderirem à iniciativa

Campanha da Fraternidade 2021: arcebispo militar orienta capelães a não aderirem à iniciativa

 

Com tema ‘Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor’, texto-base critica ‘negação da ciência’ na pandemia e ‘cultura de violência’ contra mulheres, negros, indígenas e LGBTIQ+.

O arcebispo ordinário militar do Brasil, Dom Fernando Guimarães, enviou carta à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), informando que não vai aderir à Campanha da Fraternidade de 2021. No documento, ele chama a temática da edição de “ideologizada”.

O posicionamento do Arquidiocese Militar é uma das reações negativas ao texto-base da campanha deste ano, produzido pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), com o aval da CNBB. Com o tema “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor”, o documento reprova a “negação da ciência” na pandemia e a “cultura de violência” contra mulheres, negros, indígenas e LGBTIQ+.

 

O texto ainda lança críticas ao poder público, ao afirmar que “o governo brasileiro não adota políticas efetivas no combate à Covid-19“. Além disso, classifica como “soluções falaciosas” medidas como “armar a sociedade para resolver os problemas de segurança pública e privatizar serviços essenciais como o acesso ao saneamento básico e à água potável com o argumento que assim todas as pessoas terão acesso à água”.

Na carta enviada à CCBB, o arcebispo militar afirma que os capelães militares devem seguir “apenas as orientações teológico-litúrgicas próprias do tempo quaresmal e não serão utilizados quaisquer dos materiais produzidos oficialmente pela campanha da fraternidade”.

“A evangelização dos fiéis, no entanto, em qualquer tempo e ainda mais em um tempo especial como é a quaresma católica, não é espaço para se dialogar sobre temas polêmicos e contrários à autêntica doutrina de nossa Igreja”, diz trecho da carta.

 

G1 questionou a CNBB sobre o caso, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem.

O bispo defendeu ainda a harmonia entre os pontos de vistas diferentes. “Não se trata de querer que todos pensem do mesmo modo, pois Deus não nos criou clones. Trata-se, por bem, de perceber que o diferente é o convite do encontro. E o encontro se faz através do diálogo”, afirmou.

Diferente dos anos anteriores, a CNBB não participou da coletiva de imprensa para questionamentos sobre a campanha da fraternidade. As perguntas foram respondidas por representantes do Conic, responsáveis pelo texto-base.

Fachada da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) na sede da entidade em Brasília — Foto: TV Globo/Reprodução

Fachada da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) na sede da entidade em Brasília — Foto: TV Globo/Reprodução

Questionado pelo G1 sobre as críticas do arcebispo militar, Dom Maurício Andrade, representante da Igreja Anglicana, argumentou:

“A gente não pode dizer que a campanha da fraternidade é algo ideologizado, pois assim podemos dizer que todas as campanhas ocorreram nessa direção. As campanhas sempre trazem um tema envolvendo desafios da sociedade, esse tem sido o princípio.”

 

Dom Maurício Andrade da Igreja Anglicana em coletiva de imprensa  — Foto: Reprodução

Dom Maurício Andrade da Igreja Anglicana em coletiva de imprensa — Foto: Reprodução

Para o bispo, a campanha é “importante para o contexto [atual]”. “Temos sido abalados por gestos, histórias e notícias de violências e de ódio em todos os sentidos. Quando a campanha nos traz essa chamada para se envolver no diálogo, é missão da igreja”, disse.

“É importante a gente perceber que o mundo é plural, o mundo não é incolor. A vida é diversidade. Nessa diversidade, eu vou compreender que alguma pessoa não vai utilizar o material da campanha da fraternidade, como deve ter acontecido em outros anos, mas precisamos nos manter abertos para o diálogo”, afirmou Dom Maurício.

 

Campanha da Fraternidade

 

A campanha é tradicionalmente realizada pela Igreja Católica em parceria com instituições cristãs desde a década de 1960. A confederação representa os bispos do país e funciona como uma espécie de entidade de classe. A adesão à campanha não é obrigatória e depende de cada diocese.

O lançamento do tema ocorre sempre na Quarta-feira de Cinzas, quando tem início a Quaresma – período de 40 dias que antecede a Páscoa. O assunto é difundido nas celebrações e programações da comunidade religiosa.

Com informações do G1 Notícias